Como é bom agente se sentir
livre, poderosa, dona de si. Aos doze anos, finalmente ganhei uma bicicleta. A
bicicleta pertencera a um grande ciclista. Meu pai nunca pôde me dar uma
bicicleta nova, então ele comprou essa, que passava mais tempo quebrada que
funcionando.
Eu só tinha pedalado nas
bicicletas das colegas, a famosa voltinha, por isso eu nunca aprendera pedalar
bem. Quando meu pai chegou com a bicicleta fiz uma festa tão grande que quem
visse pensaria que a bicicleta era nova. Aprendi pedalar como ninguém. Quando
subia na bicicleta me sentia uma verdadeira ciclista. Fazia questão de ser boa
no que fazia. Até que um dia...
Certa vez eu estava tão
convencida de minha capacidade que experimentei fazer algo diferente. Resolvi
fechar os olhos e descer a ladeirinha de minha casa até o final da rua. Ora, eu
sabia pedalar sem as mãos, ficava em pé apoiada no guidon, por que não pedalar
de olhos fechados, era simples, eu pensava.
Respirei fundo, sentei na sela, fechei os olhos e pedalei. Quem está com os olhos fechados não enxerga
nada, e eu estava cega, no verdadeiro sentido da palavra. Quando já estava
quase no final da rua, minha bicicleta fez uma volta de mais ou menos sessenta
graus me desviando da reta. A bicicleta foi na direção de uma casa que ficava a
um metro e meio abaixo da rua. Foi um voo sem igual, parecia Rose e Jack na
proa do Titanic, o vento soprando meus cabelos, uma sensação de poder até que pof! Caí no chão a um palmo da parede da
casa. Estou viva hoje graças a Deus, mas poderia ter sido meu último dia.
Essa história nos
ensina que não somos nada para arriscarmos a vida à toa. Somente em Hollywood não
se morre. Na vida real nos arriscamos e arriscamos a vida de outrem, fazendo
rachas nas ruas, pulando de band-jump e tantas outras brincadeiras que poderá
se tornar fatal para nossas vidas. Se os jovens que mergulharam em uma caixa d’água
da cidade de São Paulo soubessem que custaria suas vidas a brincadeira, pensariam
duas vezes antes de correrem o risco. Eles estavam cegos, assim como eu estava,
felizmente para mim foi um final feliz, ainda que um pouco machucada.

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