quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O cuscuz nosso de cada dia


Hoje é um dia especial, o dia em que completo 44 anos. Agradeço a Deus por tantas histórias que acumulei no decorrer de minha existência, histórias alegres e tristes. Todas contribuíram na edificação do caráter que tenho hoje.
Agradeço ao Pai porque sobrevivi a uma época difícil, a época da ditadura. Nasci no final do governo de Ernesto Geisel e cresci durante o governo do Presidente Figueiredo. Nessa época a vida no Nordeste era muito precária.
Fico pensando em quantas vidas foram vencidas pelo monstro da fome. No sertão uma seca desgraçada, na cidade a luta de muitos na construção civil para poder levar um bocado de pão pra casa. Vi muitas mães esperarem seus maridos ao entardecer com uma feirinha que de tão pequena muitas vezes não durava nem a semana toda. Uma feira escassa, a base de cuscuz, feijão e farinha.
Esses três alimentos eram à base da família nordestina. Muitos pais, principalmente os que moravam na zona rural arredavam para o sul sem olhar pra trás, pois ou era deixar a terra natal ou morrer de fome. Meus avós, meus pais e eu estivemos também inseridos nesse contexto de miséria. Minha avó que além da fome sofria com o descaso do marido partiu para São Paulo onde terminou de criar todos os filhos com exceção de meu pai que já era casado e tinha filhos decidiu ficar e lutar..
O lema de pai era “só deixo o meu Cariri no último pau de arara”. Assim ele foi ficando, trabalhando como caminhoneiro e depois taxista para sustentar os seis filhos, e a vida ia passando aos trancos e barrancos. Muitas vezes, tinha feijão, mas não tinha arroz, tinha arroz, mas não tinha feijão. Nós comíamos cinco centímetros de carne aos domingos, Durante a semana era bife do oião, sardinha, salsicha e por aí vai.
Hoje posso olhar pra trás e perceber que eu e tantos outros nordestinos estarem vivos foi um milagre de Deus. Milagre concebido por esta grande invenção: o cuscuz. Não sei quem o inventou, mas sei que salvou da tragédia milhares de nordestinos que não tinham o que comer. Quanto de nós comemos  cuscuz pela manhã, à tarde e à noite. Esse alimento tão rico em ferro e de baixo custo nutriu muitos trabalhadores e crianças como eu, livrando de uma tragédia tão grande ou maior que a peste Negra na Idade Média, o Holocausto, Hiroshima e Nagasaki na segunda Guerra Mundial e tantas outras calamidades universais.
Em minha opinião foi dom dado por Deus a alguém que sem prever a dimensão do benefício inventou tão delicioso alimento, alimento de ouro posso assim dizer, pois ajudou-nos a estar vivos hoje para contarmos a História.

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